A disputa pelo “real”
As transformações digitais impulsionam o deslocamento do regime de verdade
A disputa pelo “real” A crise atual, impulsionada pelas transformações digitais, reflete um desconforto com a aceleração dos tempos e a violência comunicacional, centrado na dificuldade de compreender os fluxos de informação do século XXI. O cerne do problema não é a mentira triunfando sobre a verdade, mas a inversão onde o custo da verificação empírica da realidade se tornou maior do que o custo da informação que circula sobre ela. Essa assimetria leva a um abandono racional do projeto moderno de conhecer em favor do consumo passivo de informação, substituindo a produção do conhecer pela informação consumida, o que afeta a ciência, a democracia e o mercado.
- As transformações digitais causam desconforto social, incluindo a aceleração dos tempos, bolhas sociais e colapso da atenção.
- A crise atual não é sobre a dicotomia verdade/mentira, mas sobre a crise nas condições materiais de construção desses regimes de verdade.
- O conceito de ‘regime de verdade’ de Foucault descreve como procedimentos e instituições determinam o que é verdadeiro e falso em uma sociedade.
- A política sempre operou nos limites entre verdade e falsidade para obter consenso e provocar mudanças.
- O capitalismo industrial utilizou a ciência, filosofia e política para forjar consensos sobre saúde pública, demonstrando a dependência do capitalismo em engenharia de consensos.
- As transformações digitais abalam essa engenharia de consensos, tornando o custo da verificação da realidade maior que o custo da informação.
- A informação tornou-se barata, rápida e personalizada por algoritmos, enquanto o ato de conhecer permanece caro, lento e desconfortável.
- É racional, economicamente, abandonar o projeto moderno de conhecer e consumir informação passivamente devido a uma estrutura de incentivos onde verificar não compensa.
- A pós-verdade nomeia o deslocamento do regime moderno de produção do conhecer para um regime de consumo de informação.
- Essa mudança não é tecnologicamente inevitável, mas resultado de escolhas sobre arquiteturas algorítmicas, modelos de negócio e educação pública. https://www.cartacapital.com.br/carta-capital/a-disputa-pelo-real/
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