Presidente da Bolívia decreta estado de exceção após semanas de protestos
Presidente da Bolívia decreta estado de exceção após semanas de protestos O estado de exceção na Bolívia virou plebiscito informal sobre Rodrigo Paz: para o governo, é a última trincheira para salvar a democracia; para os manifestantes, prova de que o presidente perdeu qualquer legitimidade nas ruas.
Paz em modo “ordem acima de tudo”
Nos relatos alinhados ao governo, o decreto é apresentado como resposta inevitável a 50 dias de bloqueios que estrangularam o país, causando desabastecimento de alimentos, combustíveis e remédios e paralisando cidades como La Paz. A medida amplia os poderes do Executivo para mobilizar as Forças Armadas e “liberar vias estratégicas ocupadas por manifestantes”.
Paz insiste que não se trata de um giro autoritário, mas de um movimento defensivo: o estado de emergência serve “para devolver a liberdade ao povo, para libertar a Bolívia daqueles que usam o conflito político para bloquear estradas e prejudicar a população”. Em outro pronunciamento, reforça que o decreto “não pretende eliminar a normalidade, mas restaurá-la”. Em sua narrativa, os bloqueios deixaram de ser reivindicação social legítima e viraram “tentativa organizada de desestabilizar a democracia”, supostamente impulsionada por setores ligados a Evo Morales e, segundo ele, até por “narcoterrorismo”.
Ruas em modo “fora Paz”
Do outro lado, sindicatos, indígenas aimarás e agricultores mobilizados desde o início de maio veem exatamente o oposto: um governo que responde à pior crise econômica em quatro décadas com repressão, não com solução. Os protestos começaram após o corte abrupto de subsídios aos combustíveis, em meio à escassez de dólares e negociações com o FMI, e se transformaram em pauta explosiva: reajuste salarial, fim da falta de gasolina e divisas, rejeição à “gasolina de má qualidade” e, por fim, renúncia presidencial.
Mesmo quando Paz exibe o acordo com a poderosa COB como prova de boa-fé, associações rurais, federações camponesas e produtores de coca ligados a Morales chamam o entendimento de traição e mantêm os bloqueios em regiões-chave como Cochabamba, prometendo radicalizar. Para eles, o uso de militares contra piquetes é sinal de fraqueza política, não de força institucional.
Democracia sitiada – por quem?
Há um ponto em comum entre as narrativas: todos dizem estar defendendo a democracia. Paz fala em “restabelecer o livre trânsito” e garantir o direito de trabalhar e estudar; os manifestantes se veem como barreira popular contra um governo que, após 20 anos de hegemonia da esquerda e uma recente virada de poder, teria rompido o pacto social ao impor ajustes sem escuta.
A divergência é brutal sobre quem está sequestrando o país: o Palácio culpa Evo e o “narcotráfico”; as bases, o ajuste pró-FMI e um presidente que agora aposta tudo numa carta — o estado de exceção — que pode tanto destravar estradas quanto empurrar a Bolívia para um ciclo de confrontos ainda mais perigosos.
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