União Europeia proíbe importação de carnes e outros produtos do Brasil

A União Europeia anunciou a proibição da importação de carnes e outros produtos de origem animal do Brasil a partir de setembro, alegando que o país não apresentou os relatórios exigidos sobre o controle de antimicrobianos. A medida pode gerar perdas bilionárias para o agronegócio brasileiro.
União Europeia proíbe importação de carnes e outros produtos do Brasil

União Europeia proíbe importação de carnes e outros produtos do Brasil A União Europeia fechou a porteira para a carne brasileira, mas a briga vai muito além de frigoríficos e fazendas: é disputa de modelo regulatório, de poder comercial e de narrativa política.

Bruxelas em modo linha-dura

Na versão oficial europeia, o veto não é sobre a qualidade da carne, mas sobre papelada – e ciência regulatória. O bloco retirou o Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal por falta dos relatórios exigidos sobre controle de antimicrobianos em toda a cadeia produtiva. O novo regulamento, aprovado em 2019 e detalhado em 2023, determinava que exportadores comprovassem “equivalência regulatória” até setembro, com foco em substâncias como virginiamicina e tilosina.

Na prática, isso significa que, a partir de 3 de setembro, carnes bovina, frango, pescado, equina, mel e derivados brasileiros ficam fora do mercado europeu.

Setor agro: entre choque, autocrítica e dano bilionário

Do lado brasileiro, o choque é econômico e político. A perda potencial é estimada em cerca de US$ 1,8 bilhão por ano (R$ 9,3 bilhões), ainda que a UE não seja o principal destino da carne nacional, atrás de China e EUA. Parte da produção pode ser redirecionada para outros mercados, o que limita impacto interno de preços, mas aperta especialmente empresas focadas na Europa.

A Sociedade Rural Brasileira (SRB) pede esclarecimentos e admite que as exigências adicionais da UE eram “tecnicamente viáveis” e poderiam ter sido atendidas no prazo, cobrando reflexão sobre as falhas que levaram o país a perder a certificação. Já veículos alinhados ao agronegócio falam em “pior decisão possível contra o Agro do Brasil” e alertam que o setor “pode ser devastado”.

Proteção sanitária ou protecionismo?

Para o professor da FGV Daniel Vargas, a história é menos sanitária e mais política: ele vê “pressão de produtores europeus” para reduzir a concorrência da carne brasileira e acusa a UE de usar regras sanitárias como instrumento de proteção comercial. O Brasil, lembra ele, exporta carne para mais de cem países e “nunca houve um episódio” em que a carne bovina brasileira tenha sido identificada como ameaça à saúde em laboratório.

Enquanto Bruxelas se escuda na burocracia e em padrões de rastreabilidade ultraexigentes — “saber não só a biografia do boi, mas tudo o que ele consumiu ao longo da vida” —, o recado ao Brasil é claro: quem quiser jogar no mercado europeu terá de adaptar o rebanho… e o regulamento.

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