Justiça do Peru leva candidato de esquerda a julgamento às vésperas da eleição

A Justiça peruana decidiu levar a julgamento o candidato presidencial de esquerda Roberto Sánchez por acusações de falsas informações sobre o financiamento de seu partido. A decisão ocorre apenas dois dias antes do segundo turno da eleição presidencial, na qual ele enfrenta a conservadora Keiko Fujimori.
Justiça do Peru leva candidato de esquerda a julgamento às vésperas da eleição

Justiça do Peru leva candidato de esquerda a julgamento às vésperas da eleição A dois dias do segundo turno mais apertado dos últimos anos no Peru, a Justiça colocou o principal nome da esquerda no banco dos réus – sem tirá‑lo das urnas. O processo contra Roberto Sánchez vira munição para todos os lados e expõe, de novo, o choque entre lawfare, impunidade e desconfiança institucional.

De um lado, a leitura mais institucional sublinha que o caso é “só” a Justiça funcionando. A decisão de enviar o candidato a julgamento por suposta falsa declaração de financiamento de seu partido, Juntos pelo Peru, é apresentada como um passo formal – o “auto de persecução penal” que abre caminho para o julgamento oral – sem impacto direto na votação de domingo. Sánchez segue candidato, pode recorrer e, se eleito, ganha imunidade parlamentar prevista na Constituição. Nessa moldura, o foco está na cifra: algo em torno de 57 mil dólares em aportes não declarados ao órgão eleitoral peruano entre 2018 e 2020, segundo o Ministério Público.

Do outro, veículos críticos à esquerda tratam o episódio como teste de fogo para a prometida “honestidade progressista”. A ênfase recai no fato de o juiz Adolfo Farfán ter rejeitado as alegações da defesa e decidido levar adiante uma ação que fala em cerca de 60 mil dólares omitidos em atividades partidárias, com pedido de cinco anos e quatro meses de prisão. O histórico também pesa: Sánchez é aliado do ex-presidente Pedro Castillo, hoje preso, e é acusado de “apresentar informações falsas” e até de desviar cerca de 280 mil soles (quase 59 mil dólares) para contas pessoais, segundo a acusação.

Onde as narrativas convergem? Em dois pontos incômodos. Primeiro, a sincronia cirúrgica: a decisão explode exatamente na reta final de uma eleição em empate técnico com Keiko Fujimori. Segundo, o cálculo político frio: se perder, Sánchez encara um processo pesado; se ganhar, entra no Palácio com o escudo da imunidade. Em qualquer cenário, o veredito definitivo fica para depois das urnas – e a suspeita de uso político da Justiça veio para ficar.

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