Senado aprova projeto que dificulta acesso de menores vítimas de estupro ao aborto legal

O Senado Federal aprovou um Projeto de Decreto Legislativo (PDL) que suspende os efeitos de uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). A resolução visava facilitar o acesso ao aborto legal para crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, e sua suspensão é vista por críticos como um retrocesso que impõe novas barreiras burocráticas ao procedimento.
Senado aprova projeto que dificulta acesso de menores vítimas de estupro ao aborto legal

Senado aprova projeto que dificulta acesso de menores vítimas de estupro ao aborto legal O Senado levou menos de dois minutos para redesenhar o caminho das meninas estupradas até o aborto legal – e acendeu uma guerra de narrativas sobre quem, afinal, está protegendo as crianças.

De um lado, a base conservadora comemora a derrubada da Resolução 258/2024 do Conanda como um freio a um conselho “sem voto popular” que teria “extrapolado suas competências normativas” ao permitir que adolescentes abortassem sem o conhecimento da família. Para a relatora Damares Alves, a norma “relativiza prerrogativas” de pais e responsáveis e precisava ser sustada por lei formal, devolvendo à família a centralidade sobre decisões tão sensíveis. Articulistas alinhados a esse campo falam em “resolução abortista” que “tira o poder das famílias sobre os filhos adolescentes” e atacam o que veem como uma “obsessão por ter poderes divinos sobre a vida e a morte”.

Do outro lado, órgãos de direitos humanos e setores progressistas descrevem a decisão como “grave retrocesso” e “derrota histórica”. O Conanda sustenta que a resolução apenas organizava o acesso a direitos já previstos em lei – o aborto em casos de estupro, risco de vida e anencefalia – garantindo acolhimento, sigilo, escuta qualificada e prioridade absoluta às vítimas menores de 14 anos. Para críticos, ao revogar diretrizes que dispensavam boletim de ocorrência e autorização judicial em situações de risco, o Congresso “revitimiza” crianças estupradas e “cria obstáculos adicionais para quem já enfrenta enormes dificuldades para acessar o serviço”.

Se governo e conservadores celebram a reafirmação da autoridade parental, movimentos feministas e especialistas em infância veem outra coisa: um Parlamento que, em plenário vazio e votação simbólica, “quer que criança estuprada seja mãe” e, na prática, transforma um direito formal em um labirinto burocrático.

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