Morre o filósofo francês Edgar Morin aos 104 anos

O filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, uma das figuras intelectuais mais influentes do século XX, morreu aos 104 anos em Paris. Autor de uma vasta obra e conhecido pelo conceito de "pensamento complexo", Morin foi elogiado por líderes como o presidente Emmanuel Macron, que o descreveu como "o humanismo em pessoa".
Morre o filósofo francês Edgar Morin aos 104 anos

Morre o filósofo francês Edgar Morin aos 104 anos A morte de Edgar Morin, aos 104 anos, virou menos um obituário e mais um espelho político: governo e oposição disputam não quem o critica, mas quem o entende melhor.

O Morin oficial: herói da complexidade, bandeira do humanismo

Nos veículos alinhados ao governo francês e às elites culturais, Morin é erguido a monumento. Ele aparece como o intelectual total, o homem que “inaugura o que veio a se chamar a sociologia do presente” e ousa “pensar o novo” ao recolocar o sujeito no centro das ciências sociais. A narrativa sublinha o militante da Resistência e o autor multidisciplinar que se definia como “humanólogo”, cruzando filosofia, psicologia, etnografia e biologia para responder a questões como “o que significa ser humano?” e “o que é a globalização?”.

Esse Morin é também o profeta da crise democrática, que desde os anos 1990 alertava para “a incerteza” como marca do mundo pós-Guerra Fria e o risco de regressão nacionalista e religiosa se não houvesse uma “identidade terrestre” comum. Não por acaso, Emmanuel Macron o canoniza como “o humanismo em pessoa”, celebrado como “soldado da Resistência” e “pensador do século” por um establishment que encontra em seu vocabulário da complexidade uma legitimação refinada para o discurso pró-democracia liberal.

O Morin da oposição: anti-Stálin, policrise e desconfiança do simplismo

A imprensa de oposição não derruba o mito; muda o enquadramento. Morin é apresentado como “um dos mais importantes filósofos do século 20”, cuja morte encerra “um fabuloso ciclo existencial” e uma produção que continuou ativa mesmo após os 100 anos, incluindo romance inédito e parceria com a Unesco em “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”.

Aqui pesa mais o Morin que rompeu com o Partido Comunista por suas posições anti-Stálin, desconfiando de ortodoxias, e que antecipou a “fragmentação” do mundo atual ao propor o conceito de “policrise” — a interação entre guerras, crise climática, polarização e colapso institucional. Tanto a esquerda crítica quanto analistas independentes o descrevem como o pensador que via “relações onde a maioria enxergava apenas compartimentos”, reconstruindo pontes entre sociologia, biologia, política, educação e ecologia.

Convergência incômoda

No fim, governo e oposição concordam em algo raro: Morin foi o intelectual que não cabe em rótulos simples. Um o usa para reforçar um humanismo republicano; o outro, para atacar dogmas, inclusive os da própria esquerda. O contraste não está em quem o reivindica, mas em qual Morin escolhe exibir — o santo laico do Estado ou o herege da simplificação.

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