15° Dia do Estudo Bíblico
- Como Interpretar Passagens Difíceis da Bíblia
- Materiais necessários para um bom estudo bíblico
- A dinâmica da revelação de Deus
- Exemplos de práticas primitivas
- Passagens difíceis: a pedagogia divina
- O Novo Testamento: plenitude da lei
- Orientação da Igreja: Papa Bento XVI
- Conclusão
Como Interpretar Passagens Difíceis da Bíblia
Estudar a Bíblia é mergulhar na Palavra viva de Deus, mas nem sempre é uma tarefa simples. Muitos fiéis encontram dificuldade ao se deparar com relatos de guerras, assassinatos, adultério, vingança, injustiças e outros episódios que parecem contrários ao mandamento do amor ensinado por Jesus Cristo:
“Amai os vossos inimigos” (Mt 5,44)
“Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt 5,39)
Como compreender tais textos sem cair em equívocos ou interpretações parciais?
A chave está em entender a pedagogia divina ao longo da história da salvação.
Materiais necessários para um bom estudo bíblico
Bíblia (de preferência com notas de rodapé e introduções)
Catecismo da Igreja Católica (para orientação doutrinal)
Caderno de anotações (para registrar reflexões pessoais)
Canetas coloridas (para destacar temas, personagens e ligações entre os textos)
A dinâmica da revelação de Deus
A Sagrada Escritura deve ser lida à luz da história da salvação. Deus se revela de forma gradual, pacientemente, moldando a mentalidade do seu povo ao longo dos séculos.
No início, os israelitas partilhavam de uma visão de mundo semelhante aos outros povos do Oriente Antigo:
O senso de justiça era baseado em vingança e guerras.
O conceito de Deus era o de um guerreiro que defendia Israel contra seus inimigos.
Deus permitia tais realidades, mas não queria que fossem assim. Ele acolhe o povo como está, mas vai educando, através dos patriarcas e profetas, até chegar à plenitude da revelação em Cristo.
Exemplos de práticas primitivas
Um exemplo claro está em Salomão, que teve 300 esposas e 700 concubinas (1Rs 11,3). Hoje, isso nos parece escandaloso, mas no contexto da época era considerado natural que um rei tivesse muitas mulheres.
No entanto, essa nunca foi a vontade de Deus. Desde o início, o Criador estabeleceu o matrimônio como união única e indissolúvel:
📖 “O homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne” (Gn 2,24)
Quando questionado sobre o divórcio, Jesus esclareceu:
📖 “Moisés permitiu repudiar as mulheres por causa da dureza do vosso coração. Mas, no princípio, não foi assim” (Mt 19,8)
Ou seja, havia uma lei tolerada, mas a vontade eterna de Deus é o matrimônio fiel e indissolúvel.
Passagens difíceis: a pedagogia divina
Na Bíblia encontramos relatos sombrios que revelam a dureza do coração humano:
Canibalismo em Samaria (2Rs 6,24-31)
E sucedeu, depois disto, que Ben-Hadade, rei da Síria, ajuntou todo o seu exército; e subiu e cercou a Samaria. E houve grande fome em Samaria, porque eis que a cercaram, até que se vendeu uma cabeça de um jumento por oitenta peças de prata, e a quarta parte de um cabo de esterco de pombas por cinco peças de prata. E sucedeu que, passando o rei pelo muro, uma mulher lhe bradou, dizendo: Acode-me, ó rei meu senhor. E ele lhe disse: Se o Senhor te não acode, donde te acudirei eu? Da eira ou do lagar? Disse-lhe mais o rei: Que tens? E disse ela: Esta mulher me disse: Dá cá o teu filho, para que hoje o comamos, e amanhã comeremos o meu filho. Cozemos, pois, o meu filho, e o comemos; mas dizendo-lhe eu ao outro dia: Dá cá o teu filho, para que o comamos; escondeu o seu filho.
Estupro e vingança de Dina (Gn 34) O estrupo de Dina, filha de Jacó. Quando os irmãos dela souberam eles mataram todos os homens da cidade, sendo que um só o filho do Rei, havia praticado a violência. Jacó cujo o nome foi mudado para Israel, não apoio as atitudes de seus filhos, Simeão e Levi foram os autores de massacre.
O velho Jacó tentou resolver o problema o menino que cometeu a violência se apaixonou de Dina, Jacó fez um acordo com o rei, onde todo se tornariam judeus é tiveram que passar pela cicurcisão e os filhos de Jacó se aproveitaram da circunstâncias para matar todos os homens que estavam acamados
Perseguição da igreja e a morte de Santo Estevão (At 8,1-2v)
E também Saulo consentiu na morte dele. E fez-se naquele dia uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém; e todos foram dispersos pelas terras da Judeia e de Samaria, exceto os apóstolos. E uns homens piedosos foram enterrar Estêvão, e fizeram sobre ele grande pranto.
Massacre dos inocentes (MT 2,16-18v)
Então Herodes, vendo que tinha sido iludido pelos magos, irritou-se muito, e mandou matar todos os meninos que havia em Belém, e em todos os seus contornos, de dois anos para baixo, segundo o tempo que diligentemente inquirira dos magos. Então se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias, que diz: Em Ramá se ouviu uma voz, lamentação, choro e grande pranto: Raquel chorando os seus filhos, e não quer ser consolada, porque já não existem.
Essas histórias não significam que Deus aprova tais ações, mas mostram como Ele age no meio da fraqueza humana, conduzindo a história da salvação mesmo diante do pecado.
Como ensina São Paulo:
📖 “Onde abundou o pecado, superabundou a graça de Deus” (Rm 5,20)
O Novo Testamento: plenitude da lei
Com Cristo, a revelação atinge sua plenitude.
Lei sem a graça: No Antigo Testamento, havia a lei, mas não a força para cumpri-la.
Lei com graça: No Novo Testamento, Jesus dá a graça do Espírito Santo para viver plenamente a vontade de Deus.
📖 “A Lei foi dada por meio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17)
📖 “O fim da Lei é Cristo, para a justificação de todo aquele que crê” (Rm 10,4)
📖 “O amor é o pleno cumprimento da Lei” (Rm 13,10)
Orientação da Igreja: Papa Bento XVI
Na exortação apostólica Verbum Domini (30/09/2010, nº 42), Bento XVI explica:
A revelação bíblica está profundamente radicada na história. Nela se vai progressivamente manifestando o desígnio de Deus, atuando-se lentamente ao longo de etapas sucessivas, não obstante a resistência dos homens.
Deus escolheu um povo e pacientemente, realiza a sua educação. A revelação adapta-se ao nível cultural e moral de épocas antigas, referindo consequentemente fatos e usos como, por exemplo, manobras fraudulentas, intervenções violentos, extermínio de populações, sem denunciar explicitamente a sua imoralidade.
Isto explica-se a partir do contexto histórico, mas pode surpreender o leitor moderno, sobretudo quando se esquecem tantos comportamentos obscuros que os homens sempre tiveram ao longo dos séculos, inclusive nossos dias.
No Antigo Testamento, a pregação dos profetas ergue-se vigorosamente contra todos o tipo de injustiça e de violência, coletiva ou individual, tornando-se assim o instrumento da educação dada por Deus ao seu povo como preparação para o Evangelho.
Seria pois, errado não considerar aqueles passos da Escritura que nos aparecem problemáticos. Entretanto, deve-se ter consciência de que a leitura destas páginas requer a aquisição de uma adequada competência, através Duma formação que leia os textos no seu contexto histórico -literario e na perspectiva cristã, que tem como chave hermenêutica última o Evangelho e o mandamento novo de Jesus Cristo realizado no mistério pascal.
Por isso, exorto os estudiosos e os pastores a ajudarem todos os fiéis a abeirar-se também destas páginas por meio de uma leitura que levem a descobrir o seu significado á luz do ministério de Cristo.
Conclusão
As páginas mais difíceis da Bíblia não devem ser descartadas, mas iluminadas pela cruz e ressurreição de Cristo. Deus educa seu povo na história, tolerando fraquezas, mas guiando-o rumo à plenitude da fé.
Assim como Israel, também nós vivemos quedas e pecados, mas em Cristo encontramos a graça que transforma. O estudo bíblico, à luz da Tradição da Igreja, é caminho seguro para compreender a pedagogia divina e amadurecer na fé.
📖 “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32)
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