23° Dia de Estudo Bíblico

23° Dia de Estudo Bíblico

A Evolução do Cânon Bíblico na História da Igreja

A importância dos livros deuterocanônicos

1. Introdução

A Bíblia, tal como a temos hoje, é fruto de um longo processo de discernimento da Igreja sob a luz do Espírito Santo. Ao longo da história, alguns livros enfrentaram debates quanto à sua inspiração. Entre eles estão os chamados deuterocanônicos, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Este estudo nos ajuda a compreender como o cânon bíblico evoluiu, como Cristo e os apóstolos utilizaram a versão grega da Escritura (a Septuaginta, LXX), e como os concílios da Igreja definiram, de maneira definitiva, os livros inspirados.


2. O que são livros deuterocanônicos?

O termo deuterocanônico significa “segundo cânon”, ou seja, livros cuja canonicidade foi discutida por um tempo maior, mas reconhecida pela Igreja como autêntica e inspirada. Eles se distinguem dos protocanônicos, que nunca foram questionados. 📖 Importante: deuterocanônico não significa “menos inspirado”, mas apenas que houve debate histórico sobre sua aceitação.

Também pode se entendidos os livros deuterocanônicos são aqueles que, embora não estejam no cânon hebraico, foram reconhecidos pela Igreja como inspirados. Estão presentes na Septuaginta (LXX) — a tradução grega das Escrituras usada por Jesus e pelos Apóstolos — e posteriormente na Vulgata Latina, traduzida por São Jerônimo.

Livros do Antigo Testamento:

  • Tobias
  • Judite
  • Sabedoria
  • Eclesiástico
  • Baruc
  • 1 e 2 Macabeus
  • Acréscimos em Ester e Daniel

3. Livros do Novo Testamento que foram discutidos

No Novo Testamento também houve livros considerados deuterocanônico por alguns séculos, devido a questões de autoria, tamanho ou conteúdo:

Carta aos Hebreus (por não indicar destinatário).

Tiago (especialmente pela frase “o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé” – Tg 2,24).

Segunda e Terceira Carta de João (muito curtas).

Segunda Carta de Pedro (estilo literário diferente da primeira).

Carta de Judas (por citar livros apócrifos, como o Apocalipse de Enoque).

Apocalipse de João (polêmico pela simbologia).

Ainda assim, a Igreja, guiada pelo Espírito Santo, confirmou a inspiração destes escritos.


4. Citações de Jesus aos Deuterocanônicos

Muitas notas de rodapé em Bíblias católicas nos ajudam a perceber a unidade da Escritura. Exemplos de citações do próprio Cristo que remetem a textos deuterocanônicos:

Mateus 4,4

“Está escrito: não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.”

👉 Conexão: Dt 8,3 e Sabedoria 16,26.

“No entanto, Senhor, para que vossos filhos aprendessem, mostrastes que não são os diversos frutos que nutrem o homem, mas a vossa palavra conserva os que creem em vós.” (Sb 16,26)

Mateus 18,10

“Cuidado! Não desprezeis nenhum desses pequeninos, pois eu vos digo: seus anjos veem sem cessar o rosto do meu Pai que está nos céus.”

👉 Conexão: Tobias 12,15.

“Eu sou Rafael, um dos sete anjos que estão sempre presentes e têm acesso junto à glória do Senhor.”

Essas passagens demonstram que Jesus ensinava em sintonia com a versão grega da Septuaginta (LXX), que continha os deuterocanônicos.


5. Livros protocanônicos não citados

Há também livros protocanônicos que não são citados no Novo Testamento (como Cântico dos Cânticos e Eclesiastes). Isso prova que a citação explícita não é critério absoluto de inspiração: a autoridade da Igreja foi essencial.


6. O discernimento da Igreja: Concílios e Sínodos

III Sínodo de Cartago (397 d.C.): estabeleceu a lista dos livros inspirados (Denzinger-Hünermann 186). Santo Agostinho, bispo de Hipona havia dois anos, participou ativamente. Na lista ainda não aparece Baruc.

Também foi determinado que, além das Escrituras Canônicas nada seja lido na Igreja sob o título de divinas Escrituras. As Escrituras Canônicas são as seguintes:

  • Gênesis,
  • Êxodo,
  • Levítico,
  • Números,
  • Deuteronômio,
  • Josué, filho de Nun,
  • Juízes,
  • Rute,
  • quatro livros dos Reis,
  • dois livros de Paralipômenos,
  • Jó,
  • o Saltério,
  • cinco livros de Salomão,
  • a livros dos doze profetas,
  • Isaías,
  • Jeremias,
  • Ezequiel,
  • Daniel,
  • Tobias,
  • Judite,
  • Ester,
  • dois livros de Esdras,
  • dois livros dos Macabeus. Do Novo Testamento:
  • quatro livros dos Evangelhos,
  • um livro dos Atos dos Apóstolos,
  • treze epístolas do Apóstolo Paulo,
  • uma carta, do mesmo, aos Hebreus,
  • duas Epístolas do Apóstolo Pedro,
  • três de João,
  • uma de Tiago,
  • uma de Judas,
  • um livro do Apocalipse de João.

Que este seja dado a conhecer também a nosso irmão e companheiro sacerdote Bonifácio, ou a outros bispos daquelas partes, com a finalidade de confirmar este cânone, porque nós recebemos de nossos pais que os livros devem ser lidos na Igreja. Seja também permitido que as paixões dos Mártires sejam lidas quando seus festivais são comemorados.” (CARTAGO, 397)

Concílio de Florença (1442): pela bula Cantate Domino, reafirmou a lista dos livros inspirados (DH 1334-1335).

Citação da Cantate Domino:

O Sacrossanto concílio professa que um e o mesmo Deus é o autor do Antigo e Novo Testamento, isto é, da Lei, dos profetas e do Evangelho, pois os Santos de ambos os Testamentos falaram sob a inspiração do mesmo Espírito Santo. Este Concílio Aceita e venera os Seus livros que vêm indicados pelos títulos seguintes:

  • O Pentateuco de Moisés, isto é,
  • Genesis,
  • Êxodo,
  • Levítico,
  • Números,
  • Deuteronômio;
  • Josué,
  • Juízes,
  • Rute,
  • quatro livros dos Reis[7],
  • 2 dos Paralipômenos[8],
  • Esdras,
  • Neemias,
  • Tobias,
  • Judite,
  • Ester,
  • Jó,
  • o Saltério de Davi[9],
  • as Parábolas (Provérbios),
  • Eclesiastes,
  • Cântico dos Cânticos,
  • Sabedoria,
  • Eclesiástico,
  • Isaías,
  • Jeremias,
  • Baruc,
  • Ezequiel,
  • Daniel, os Doze Profetas menores (isto é, Oseias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias)
  • e dois livros dos Macabeus.
  • Quatro Evangelhos, Mateus, Marcos, Lucas e João;
  • quatorze epístolas de Paulo, uma aos Romanos, duas aos Coríntios, uma aos Gálatas, uma aos Efésios, uma aos Filipenses, uma aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, uma a Tito, uma a Filemon, uma aos Hebreus;
  • duas epístolas de Pedro,
  • três de João,
  • uma de Tiago,
  • uma de Judas,
  • os Atos dos Apóstolos e
  • o Apocalipse de João”. (SAINT LIBERÈ, 2008).

Concílio de Trento (1546): definiu dogmaticamente o cânon bíblico, confirmando os 73 livros que usamos hoje.

O Concílio de Trento é o décimo nono Concílio Ecumênico da Igreja, começou em 13 de Dezembro de 1545, e encerrou em 4 de Dezembro de 1563. Seu objetivo principal foi a determinação definitiva das doutrinas da Igreja no combate às heresias protestantes; Outro objetivo também era a execução de uma reforma profunda da vida interior da Igreja, removendo alguns abusos que se tinham desenvolvido dentro dela. (ENCICLOPÉDIA CATÓLICA, 1907)

“… para que nenhuma dúvida possa surgir na mente de qualquer um, sobre quais são os livros que são recebidos por este Sínodo. Eles estão definidos como aqui abaixo:

Do Antigo Testamento: os cinco livros de Moisés, a saber, Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, quatro livros dos Reis, dois dos Paralipômenos, o primeiro livro de Esdras, e o segundo que é intitulado Neemias; Tobias, Judite, Ester, Jó, o Saltério de Davi, composto de cento e cinquenta salmos, os Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico, Isaías, Jeremias, com Baruc, Ezequiel, Daniel, os doze profetas menores, a saber, Oseias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias, dois livros dos Macabeus, o primeiro e o segundo.

Do Novo Testamento: os quatro Evangelhos, segundo Mateus, Marcos, Lucas e João; Atos dos Apóstolos, escrito por Lucas Evangelista; catorze epístolas de Paulo, o apóstolo: (uma) aos Romanos, duas aos Coríntios, (uma) aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, (uma) a Tito, a Filemon e aos Hebreus; duas de Pedro, o apóstolo; três de João o apóstolo; uma do apóstolo Tiago; uma de Judas o apóstolo e o Apocalipse de João, o apóstolo.

Mas, se alguém não receber, como sagrados e canônicos, os referidos livros inteiros com todas as suas partes, como são costumeiramente lidos na Igreja Católica, e como eles estão contidos na antiga edição da Vulgata Latina, e consciente e deliberadamente desprezar as antigas tradições; seja anátema.” (Enquiridium Biblicum, 2008).

Ser anátema 👉 excomunhão formal ou exclusão da comunhão da fé para quem negava verdades já definidas (dogmas). Exemplo: nos documentos do Concílio de Trento (séc. XVI), após definir uma doutrina, a fórmula era:

“Se alguém disser o contrário… seja anátema.” Isto é: essa pessoa estaria fora da comunhão da Igreja.

Fontes:

BÍBLIA SAGRADA CATÓLICA - Editora Ave- Maria

Rafael Rodrigues. O cânon bíblico dos Concílios. Apologistas Católicos. Disponível em: [ https://apologistascatolicos.com.br/o-canon-biblico-dos-concilios/. Acesso em: 03/09/2025.

Frei Gilson /Som do Monte Oficial - . (2024) A evolução do Cânon Bíblico na história da Igreja | Força de Deus [Vídeo]. YouTube. https://youtu.be/sBLia-4wJ6s?si=WaSy_axKg-USd5Tc



Write a comment
No comments yet.